sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
domingo, 28 de novembro de 2010
domingo
domingo, 21 de novembro de 2010
20/11/2010
“How many roads must a man walk down,
before you call him a man?”
Blowin’ in the wind, Bob Dylan
Pintava um quadro, como quando em seus demorados banhos limpava o peito, pelos e mamilo, com especial carinho. Não percebia o quanto demorava cada pincelada, apenas cortava o pedaço de papelão velho com suas cores inomináveis que sua vontade misturava no velho cinzeiro. Pegaria o isqueiro e acenderia um cigarro não fosse pela última noite. Bebia vodka barata misturada aos restos de sua geladeira, misturas que o agradariam dias atrás, até o fariam rir, mas hoje eram apenas uma forma de colocar mais álcool pra dentro de si e poder dizer no outro dia, num hospital ou casa desconhecida, vodka e soja não fazem bem a um estômago abalado. Perdera seu fogo noite passada. Os fósforos dados pelo espanhol do bar acabaram em sua última tentativa de matar aquela fumaça negra que entrava junto com a de seu cigarro barato. Um borrão. As pinceladas sem sentido se deixaram contaminar pelos pensamentos e uma imagem asquerosa de um pequeno pássaro cruzando o quadro o aterrorizara mais que toda possibilidade de um dia terminar aquele quadro. Cuspe e os dedos foram suficientes para brotar um olho cansado.
Chorava tintas em papelão. Não, bebericava sua própria lágrima. Nunca havia pensado assim correr sem olhar pra trás rindo bêbado incrédulo seco triste leve livre tonto perdido asmático cego homem não fosse a voz e os braços. Até agora não entendera aquele momento, as palavras que não conseguia ouvir, aquele lugar, a doentia insistência para que aquilo tudo acontecesse. Uns choram pela morte de algo e outros olham para o vazio de uma terra sem vida como a procurar num esforço do cristalino um ponto indefinido ao longe onde fixar seus pensamentos vazios e andar perdido. Emergir do sonho com olhares ofuscantes te mirando tornam a magia um pesadelo. O papelão se dobrara ao meio com um excesso de vigor na mão. A mancha se duplicara e o cegava. Sentia muito medo, a vodka o dominava quase por completo. Não fosse o quadro inacabado teria caído ao chão inanimado.
Suava. As pinceladas cada vez mais fortes talvez lhe tomassem sua energia. Parecia esfaquear o ar com golpes de cores sem vida. Segurava forte o isqueiro vazio como quem espera sangrar a mão usando um antigo bonequinho de ferro. Todo esse sentimento tinha vida própria. Pensar na noite passada lhe fazia afrouxar a mão e baixar o pincel e isso o fazia apagar a lembrança de tudo. Pintava com o mesmo olhar que fitara aquela terra, e abria mais e mais os olhos como a temer o inevitável a sua frente. O quadro de papelão estava quase pronto. O último gole foi na verdade o último copo bebido de uma só vez, a última cor era na verdade uma mistura de seu suor e o resto de todas as outras cores no cinzeiro, a última pincelada fora na verdade cinco tiros desferidos na horrenda imagem que surgia no insaciável papelão, o último respiro fora de sangue, o último movimento, a queda pesada até o chão. O quadro pintado era um retrato de si mesmo.
Pegou dinheiro e saiu para comprar fogo e cigarro.