quinta-feira, 28 de julho de 2016

Paulo e as Palavras


Pra não perder o ritmo, Paulo resolveu pegar de seu papel e caneta, e escrever alguns versinhos. Não foram o esperado, já que de fato, ele nada esperava. Quem apenas pega papel e caneta, só espera que algo venha, sem saber o que será isso. Mas Paulo não ficou exatamente descontente. Tinha sim que aprender a lidar com as palavras que havia escrito. Precisava interpretá-las e até mesmo, por mais que o tenha feito debaixo da mesa, escondido, pegar do dicionário e procurar o significado de uma palavra. Disso não deveria ter vergonha, afinal, ela era bem grande e parecia ter mais consoantes que vogais. Mas quem nesse mundo pode controlar a vermelhidão das bochechas quando elas decidem aparecer? Pois entre bochechas e não saber o significado de uma palavra existem poucas diferenças. Não, seu rosto não ficou rubro, mas certamente o teria ficado se alguém tivesse entrado no seu quarto e o visto com o dicionário em mãos. E foi mesmo por estar sozinho que ao saber do significado da palavra Paulo abriu um leve sorriso. Seria uma grande gargalhada de satisfação, mas ele preferiu exterioriza-la em um pequeno desenho que fez no canto inferior esquerdo da folha. Nada muito complexo, só o pequeno sapo de cabeça enorme e patas bem curtinhas que sempre desenhava. Era seu desenho "pré-fabricado", desses que todo mundo tem um. Claro que grande parte da população se deixa levar pela timidez e a insegurança disso que a sociedade chama de um mal traço e adota para si o famoso elefante-ponte. É uma maneira de não ser julgado. Paulo não conseguiu se desfazer de seu sapo. Até tentou uma vez, mas enquanto ainda ia pelo corpo do elefante acabou por transformar esse desenho num sapo triste. Quisera ele que as palavras se defendessem dessa maneira também. Mas dessa palavra grande, com mais consoantes que vogais, a qual buscara no dicionário, lhe parece que jamais haveria a possibilidade de metamorfose. Mal sabia Paulo que as palavras não passam de 23 desenhos, e seus enfeites, organizados e repetidos à sorte, e que tudo o que esperam é a ponta de uma caneta para transformá-las em outra coisa.